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O AZUL E AS FARPAS
Salgado Maranhão
Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia [...]
FAMILIA
José Wilton
No meu sangue
Sangue
Que é o sangue!
Todos têm um sangue
Que remonta de outro sangue
E nem sempre o mesmo sangue.
Mas no sangue
Do meu sangue
Vê-se um só sangue
Até quando para o meu sangue
Escorre outro sangue.
Vertente
Em desafio eu indago
por que alguns nascem lago
e eu nasço vertente?
Há plantas e gente
na tranqüilidade do lago…
Eu sei que há, sim!
Mas não para mim.
Por destino carrasco
Nasci do penhasco.
E minha água de vida
verte, sofrida
da aridez…
Dalva Agne Lynch
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O mar e eu
Céu nublado
Nuvens fechadas
Lilás entreposto
Mar agitado
Águas bravias
Mostravam sua raiva
Sem barcos a singrar
Solidão primordial
Eu enlevada
Pelo rugir das águas
Coração cheio de mar…
O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR
Mário Faustino
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto [...]
Narciso e Narciso
Ferreira Gullar
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar [...]
I
ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ.
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst
É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesses dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor [...]
03 de maio de um tempo qualquer, tomo emprestado o poema de Elmar Carvalho e registro a data.
MUSA MEDUSA
* Elmar Carvalho
Sem arautos
sem pajens e sem bagagens
inesperadamente chegaste
sem anúncios e sem presságios
egressa de sonhos e miragens
e tão inesperadamente te foste
no mesmo sonho que te trouxe.
E na dor
intrusa que me restou
a Musa se fez [...]
(…) Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!
E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!…
SEIOS
Por Francisco Miguel de Moura
branca blusa, seios menos
como frutas abafadas
ao céu pedindo carícias
mão
e
dente
- por que corrias na praça?
de malícia ou de contente?
- ora, só deus me sabia
da tempestade presente
LEAVES OF GRASS
By Walt Whitman
The soul,
Forever and forever – longer than soil is brown and solid –
longer than water ebbs and flows.
I will make the poems of materials, for I think they are to be
the most spiritual poems,
And I will make the poems of my body and of mortality,
For I think I shall then supply [...]
Narciso e Narciso
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
VERGANGENHEIT
Nikolaus Lenau
At the edge of the summer
I hear your voice
I see your smile
It’s time
For all the birds to fly
With all tears I cried
And all love will die
NA EMBRIAGUEZ DA CARNE
Não quero amar-te
Apenas na embriaguez da carne.
Assim, sempre eu te amei,
Embora na carne,
Eu nunca tenha te amado.
MÁSCARAS!
Estamos em pleno carnaval: liberdade de expressão e movimento.
Máscaras.
Máscaras? – Não são as do dia a dia?!
Carnaval: chuva de máscaras no salão, na avenida, no coração!
Chuva: caindo em torrentes no salão, na avenida, no coração!
O VERBO
Salgado Maranhão
Ó caminhos que afundam
minhas rasuras!
O que é do tempo
é da terra
o que é da terra
é do Ter.
Ó escudos de selva
e trilho!
Do que me atrevo
Sobrevivo.
Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de-merecê-las
Ao beijar a esmola que me deres.
Podes até amar outras mulheres!
Hei-de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!
“Duas lágrimas
de pedra nos olhos de vidro
e uma tristeza infinita na
alma de cristal.
O pensamento
voando além do infinito
e o corpo inerte
querendo voar”.
“Flower in the Crannied wall,
I pluck you out of the crannies,
I hold you here, root and all, in my hand,
Little flower – but if I could understand
what you are, root and all in all,
I should know what God and man is…”
MARE ORIENTALE
Joca Reiners Terron
Na parte em que não te toca o sol
Te tocarei eu, enfim. Entrededos como
Fêmur em carne e remo n’água:
Rumo ao extremo de ti
Em busca de mim.
Listen,
if I came to you, out of the wind
with only my blown dream clothing me,
would you give me shelter?
………………….
I know you cannot be exposed
however soft the wind
or however small the rain.
I sing, therefore, of nothing,
as if it were the place
I do not return to -
and if I should return, then count out my life
in these stones: forget
I was ever here. The world
that walks inside me
is a world beyond reach.
O que dizer?
Que teu cheiro continuaria em minhas mãos
Se não houvesse água e necessidade de tomar banho?
Que teu sorriso interminável continua na memória,
Resistindo contra o esquecimento resultante de lugares à meia-luz?
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