SALGADO MARANHÃO – O Azul e as Farpas (Fragmentos)

 

 

 

 

O AZUL E AS FARPAS
 Salgado Maranhão

 

 

 

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia [...]

WILTON PORTO – FAMÍLIA (Fragmentos)

 FAMILIA

          José Wilton
No meu sangue
Sangue
Que é o sangue!

Todos têm um sangue
Que remonta de outro sangue
E nem sempre o mesmo sangue.

Mas no sangue
Do meu sangue
Vê-se um só sangue
Até quando para o meu sangue
Escorre outro sangue.

 

DALVA AGNE LYNCH – VERTENTE (Fragmentos)

Vertente

Em desafio eu indago
por que alguns nascem lago
e eu nasço vertente?
Há plantas e gente
na tranqüilidade do lago…
Eu sei que há, sim!
Mas não para mim.
Por destino carrasco
Nasci do penhasco.
E minha água de vida
verte, sofrida
da aridez…

Dalva Agne Lynch

 

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem [...]

O MAR E EU – por Rita de Cássia Amorim Andrade (Fragmentos)

O mar e eu

Céu nublado

Nuvens fechadas

Lilás entreposto

Mar agitado

 Águas bravias

Mostravam sua raiva

Sem barcos a singrar

Solidão primordial

 Eu enlevada

Pelo rugir das águas

Coração cheio de mar…

 

O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR – Mário Fautino (Fragmentos)

  O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR

          Mário Faustino

 O mundo que venci deu-me um amor,

Um troféu perigoso, este cavalo

Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor

Alado galopando em céus irados,

Por cima de qualquer muro de credo,

Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor

Amor feito de insulto e pranto [...]

NARCISO E NARCISO – por Ferreira Gullar (Fragmentos) (texto completo, a pedido)

 Narciso e Narciso

           Ferreira Gullar

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira. 

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar [...]

HILDA HILST – ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ. (Fragmentos)

 

I

ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ.
DE ARIANA PARA DIONÍSIO.
Hilda Hilst

 

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.

Voz e vento apenas

Das coisas do lá fora

 

E sozinha supor

Que se estivesses dentro

 

Essa voz importante e esse vento

Das ramagens de fora

 

Eu jamais ouviria. Atento

Meu ouvido escutaria

O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.

Porque é melhor [...]

03 DE MAIO de um tempo qualquer – (Fragmentos)

03 de maio de um tempo qualquer, tomo emprestado o poema de Elmar Carvalho e registro a data.

 

 

MUSA MEDUSA

                       * Elmar Carvalho

 

 

Sem arautos

sem pajens e sem bagagens

inesperadamente chegaste

sem anúncios e sem presságios

egressa de sonhos e miragens

e tão inesperadamente te foste

no mesmo sonho que te trouxe.

E na dor

intrusa que me restou

a Musa se fez [...]

FLORBELA ESPANCA – Tarde de mais… (Fragmentos)

(…) Beijando a areia de oiro dos desertos

Procurara-te em vão! Braços abertos,

Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

 

E há cem anos que eu era nova e linda!…

E a minha boca morta grita ainda:

Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!…

 

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA – Seios

 

SEIOS

       Por Francisco Miguel de Moura

 

 

branca blusa, seios menos
como frutas abafadas
ao céu pedindo carícias
                      mão
                       e
                      dente

- por que corrias na praça?
de malícia ou de contente?

- ora, só deus me sabia
da tempestade presente

 

 

WALT WHITMAN – Leaves of Grass

LEAVES OF GRASS

By Walt Whitman

 

The soul,

Forever and forever – longer than soil is brown and solid –

longer than water ebbs and flows.

I will make the poems of materials, for I think they are to be

the most spiritual poems,

And I will make the poems of my body and of mortality,

For I think I shall then supply [...]

FERREIRA GULLAR – Narciso e Narciso

Narciso e Narciso

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira. 

NIKOLAUS LENAU – Vergangenheit

VERGANGENHEIT

     Nikolaus Lenau

At the edge of the summer
I hear your voice
I see your smile
It’s time
For all the birds to fly
With all tears I cried
And all love will die

WILTON PORTO – NA EMBRIAGUEZ DA CARNE

     

NA EMBRIAGUEZ  DA CARNE

Não quero amar-te

Apenas na embriaguez da carne.

Assim, sempre eu te amei,

Embora na carne,

Eu nunca tenha te amado.

RITA DE CÁSSIA AMORIM ANDRADE – MÁSCARAS

MÁSCARAS!

Estamos em pleno carnaval: liberdade de expressão e movimento.

 Máscaras.

 Máscaras? – Não são as do dia a dia?!

Carnaval: chuva de máscaras no salão, na avenida, no coração!

Chuva: caindo em torrentes no salão, na avenida, no coração!

SALGADO MARANHÃO – O VERBO

 

O VERBO

Salgado Maranhão

 

 

Ó caminhos que afundam
minhas  rasuras!

O que é do tempo
é da terra
o que é da terra
é do Ter.

Ó escudos de selva
e trilho!

Do que me atrevo
Sobrevivo.

 

FLORBELA ESPANCA – CRUCIFICADA

                   

Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!

Por ti, todos os céus terão estrelas,

Por teu amor, mendiga, hei-de-merecê-las

Ao beijar a esmola que me deres.

 

Podes até amar outras mulheres!

Hei-de compor, sonhar palavras belas,

Lindos versos de dor só para elas,

Para em lânguidas noites lhes dizeres!

ELMAR CARVALHO – POESIA CÓSMICA

“Duas lágrimas

de pedra nos olhos de vidro

e uma tristeza infinita na

alma de cristal.

O pensamento

voando além do infinito

e o corpo inerte

querendo voar”.

ALFRED LORD TENNYSON – FLOWER IN THE CRANNIED WALL

“Flower in the Crannied wall,

I pluck you out of the crannies,

I hold you here, root and all, in my hand,

Little flower – but if I could understand

what you are, root and all in all,

I should know what God and man is…”

JOCA REINERS TERRON

MARE ORIENTALE

Joca Reiners Terron

 

Na parte em que não te toca o sol

Te tocarei eu, enfim. Entrededos como

Fêmur em carne e remo n’água:

 

Rumo ao extremo de ti

Em busca de mim.

MICHAEL HARTNETT

Listen,

if I came to you, out of the wind

with only my blown dream clothing me,

would you give me shelter?

………………….

I know you cannot be exposed

however soft the wind

or however small the rain.

PAUL AUSTER

I sing, therefore, of nothing,

as if it were the place

I do not return to -

and if I should return, then count out my life

in these stones: forget

I was ever here. The world

that walks inside me

is a world beyond reach.

 

Joca Reiners Terron

O que dizer?

Que teu cheiro continuaria em minhas mãos

Se não houvesse água e necessidade de tomar banho?

Que teu sorriso interminável continua na memória,

Resistindo contra o esquecimento resultante de lugares à meia-luz?