Primeira Parte
III
O passageiro ao lado acendeu a luz que ficava sob o porta-bagagem, e o foco veio em minha direção, interrompendo-me os pensamentos. Fechei os olhos, na tentativa de continuar a reviver meus instantes com Francesco. Não foi possível. O homem me sorriu meio embaraçado, desculpou-se e desligou a luz. Em seguida, tentou puxar conversa, mas eu não estava com disposição para falar. Ao perceber, ele se virou para o outro lado e dormiu. Eu, também, desejava dormir um pouco, mas os olhos estavam secos. Por um segundo, observei o companheiro de viagem e senti remorso por ter sido tão egoísta. Veio-me à mente os versos de Whitman: “Desconhecido, se você vier passando / e der comigo e me quiser falar / – por que não haveria de falar com você?”. Não tinha o costume de me relacionar com estranhos, mas, meia dúzia de palavras poderíamos ter trocado. Tentei dormir, não consegui. Decidi rezar, pedir a Deus a coragem necessária para enfrentar o que me estivesse a esperar.
Desde que deixara o Brasil, nada mais soubera de Francesco e dos amigos. Por razões pessoais, problemas cardíacos sérios, Thomas decidira permanecer em Ottawa até o desfecho fatal. E durante os anos que ainda vivera com Thomas, que se tornara um pai extremoso, porém, um marido cruelmente possessivo, fora-lhe fiel. Em nenhum instante tentei obter notícias de Francisco. Guardava-o tão secretamente, que só Deus poderia conhecer aquele esconderijo.
A sonoridade constante do avião agride meus ouvidos, impedindo-me de repousar. Queria muito não pensar. Sinto-me tão oprimida! Mas, novamente, as recordações dão vida aos fatos.
A manhã em nada prenunciava o encontro com Francesco. Após deixar Willian e Janete no colégio, segui rumo ao cento da cidade. O trânsito caótico me enervava. Tentei relaxar um pouco. Era a minha missão de todas as manhãs, levar e buscar os filhos. Ainda assim, preferia eu própria conduzi-los a utilizar o motorista e toda a segurança protocolar. Era uma maneira de sentir-me uma pessoa comum, uma mãe, como todas as mães comuns.
Nessa manhã, ocuparia o tempo com algumas compras no comércio de centro da cidade. Ao ver estampado no topo de um prédio, em grande letreiro, o nome de uma loja, decidi fazer o retorno. O problema maior seria encontrar vaga para estacionar o carro. Entrei na Rua do Passeio e, enquanto lhe percorria em marcha lenta, dada a grande quantidade de veículos, avistei o enorme pôster de um artista, que me fez lembrar o sobrinho de Isabella. Novamente a sensação estranha ao pensar naquele homem. Antes de conhecê-lo, o vazio da minha vida de mulher casada solitária não era tão difícil de suportar. Tinha por hábito transformar em verdadeiro lar, as residências dos vários países por onde estivéramos morando. Gostava de exercer os cuidados maternos, e os filhos se relacionavam muito bem comigo. A administração doméstica, embora monótona, raramente recebia convidados oficiais, não me aborrecia. A tranquilidade do casamento somente se quebrou no momento em que conheci Francesco. Embora tivesse tendência sonhadora, nunca imaginei que as defesas estivessem tão debilitadas a ponto de me deixar envolver por devaneios amorosos. Na minha vivência pelo mundo, conhecera muitos homens interessantes, mas jamais me sentira atraída por nenhum.
Agora, inesperadamente, ali esta ele, naquela imensa loja de departamentos, parado, com expressão interrogativa, queixo para o alto, ar petulante. E, ao vê-lo, senti o quanto sua presença me perturbava. Tentei disfarçar, porém tarde demais, ele se encaminhava em minha direção. Queria fugir, as pernas não me obedeciam. A sensação de peso, mesclada aos tremores e calafrios, embotavam-me as idéias.
Estava em frente a mim. Parecia, à luz do dia, um pouco mais velho. A farda lhe dava certo ar grave. Conseguiria algum dia, decifrar o enigma daquele olhar?!
Sentia-me embaraçada, como se o soubesse lendo-me. Aproximou-se, não me deixando espaço para qualquer movimento:
— Karen…
— Francesco!
— Estive fora por alguns meses. — Expressava-se como que desejando justificar a ausência.
Ainda imóvel, sem saber que rumo tomar, consultei o relógio e desculpei-me por dispor de pouco tempo para as compras, e mais, ainda teria que buscar as crianças na escola. Era sempre assim, ansiava-o com desespero, mas, por covardia ou insegurança me sentia impelida a fugir.
— Karen, por que a pressa? — tocou-me a face com o dorso da mão.
Desejei beijá-lo. Um calor inexplicável se apoderava de mim, queimando-me por inteiro. Por um segundo, fiquei paralisada a fitá-lo. Extremamente confusa, sentia meu corpo desintegrar-se e escorrer em filetes numa louca desramificação. Fechei os olhos, quando fui salva pelo próprio Francesco que, ao perceber o meu embaraço, convidou-me a dar um giro pelo departamento de roupas masculinas. Recusei. Distanciei-me, porém, senti que ele me acompanhava com o olhar. Desci a escada rolante. O coração disparava. Já no andar térreo, vacilei, cedi à tentação e decidi subir novamente.
A aeromoça me corta o pensamento:
— Aceita uma almofada para melhor se recostar? — respondo-lhe negativamente. Mudo de ideia e aceito. Tento dormir um pouco, quase todos os passageiros o fazem. Acordo sobressaltada. Acho que sonhei com Francesco, que comprava milhares de almofadas. Ou seriam colchões? O que, realmente, estaria ele comprando naquela loja? Não consigo me lembrar. Estou confusa. Recordo-me que, ao retornar ao andar de cima, pude vê-lo conversando com três vendedoras que, sorridentes, o atendiam. Ele abraçava uma delas e acariciava-lhe os cabelos. Acho que ela gostava, percebia-se pelo seu sorriso. Por que as mulheres têm fascínio por uniformes militares? Acontece em todo o mundo. Senti ciúmes. Como o odiei naquele momento! Cheguei a achá-lo feio. E com aquelas pernas arqueadas!… Parecia pertencer à época da cavalaria. Mas era tão jovem! Apenas vinte e quatro anos de idade. Afilhado do Coronel Honório, fora aos onze anos levado Poe este à Escola Militar — dissera-me a amiga Isabella. Por que se interessaria, então, por uma mulher de trinta e quatro, casada e mãe?!
Já em casa, após providenciar o banho das crianças, dirigi-me para o quarto de dormir na esperança de relaxar-me um pouco. Tinha sido uma manhã difícil. Joguei-me na cama. Logo, Thomas estaria em casa. Era um homem inteligente e perspicaz. Thomas! Se ao menos me amasse! Talvez houvesse outra mulher. Jamais saberia, ele tinha sentimentos comedidos.

