KAREN – CORPO E ALMA
Primeira Parte
IV
O avião aterrissou ao amanhecer.
O hotel fora sugestão da aeromoça. Ficava a certa distância de Copacabana. Seria melhor assim. Preferia evitar o encontro com velhas conhecidas. Afinal, não estaria tão distante da grande amiga Isabella, única pessoa que poderia ajudá-la a encontrar Francesco.
Já no quarto do hotel, emocionada, descerrou a janela, recostou-se no peitoril, e no ímpeto de quem revê algo querido, abriu os braços, respirou fundo, e, com um sorriso, deixou que as lágrimas lavassem seu rosto cansado.
A vista para o Aterro lhe oferecia um amplo espaço visual. Mais adiante, uma estátua cravada de flechas lhe fazia lembrar sua própria dor. Contudo, o sugestivo nome do hotel lhe prometia a glória dos seus sonhos.
Desfez as malas, colocou na pequena mesa ao lado da cama o porta-retrato em que Willian e Janete seguravam Eileen pelos braços, enquanto esta se embalava como se estivesse em um daqueles balanços de parque infantil num momento de descontração. Beijou a foto dos filhos, em seguida, encaminhou-se para o banheiro com a intenção de tomar uma demorada ducha e relaxar-se da viagem que parecia ter tido a duração de uma eternidade. A água batia forte no seu corpo e escorria morna e macia, acariciando sua pele, despertando-lhe momentos idos. Francisco ali estava, testando a água, se na temperatura certa, cuidando que seu cabelo permanecesse enxuto, a fim de evitar posteriores transtornos. Passou a mão pelos cabelos molhados e percebeu que o instante era outro.
A janela aberta deixava entrar o ar quente da manhã. O quarto, vazio de amor, tornou-se desafiador.
Recomeçar. Encontrar em si a força necessária para os desafios que viriam. Saber que um milagre lhe era necessário. Com certeza, em algum lugar, Deus estaria a espreitá-la, quem sabe, naquele raio de sol, que se infiltrava quarto adentro. Um Deus conhecedor da verdade primeira e que lhe concederia a verdade última.
Estou sonolenta. Tento refletir. Penso na morte de Thomas. Expulso o pensamento. O cérebro se torna nada, no entanto, pesa.
Acho que dormi. Ouço vozes, passos, pelos corredores. As pálpebras ainda não me obedecem. Esforço-me em vão para sair desse torpor. Sinto a umidade da toalha, cobrindo parte do meu corpo, tão só, estendido de través, na cama de um hotel. O estômago anuncia as horas. O som do avião não se foi de todo. Sinto calor. Pouco a pouco, volta-me a consciência. Buzinas ao longe me ajudam a despertar. Subitamente, evidencio onde estou e por que estou. Já desperta, esmero-me no vestir, embora sabendo que o próximo passo é uma incógnita.
Sentiu na pele o forte calor da tarde. Esperou algum tempo até deixar o hotel e seguir à procura de Francesco. Com a certeza que o amor lhe concedia, de que muito em breve estaria nos braços dele, tentou controlar a ansiedade.
Entrou num táxi. O motorista, imaginando tratar-se de uma turista, tentava ser simpático, descrevendo minuciosamente a cidade. Porém, mergulhada em profundos pensamentos, não lhe dava a atenção devida. Já bastante ansiosa, impacientava-se com a lentidão do carro que parecia jamais alcançar o destino. Fechou os olhos no esforço de manter a calma.
Os sentidos se tornavam fugidios. Não notou que se aproximava do prédio, na Travessa Carlos de Sá, onde costumava encontrar-se com Francesco. Ao descer do táxi, teve o instinto de olhar em derredor, como costumava fazê-lo outrora. A angústia aumentava e quebrava-lhe as forças. Mal conseguia pagar ao motorista, tal o tremor das suas mãos. A rua estava tranquila. O silêncio só era quebrado pelas vozes gritantes de crianças vindas de uma escola próxima. Os olhares dos transeuntes inibiam-na. Sentia-se observada, apressou o passo e, assustada, chegou ao hall do edifício. As paredes não mais lhe eram familiares, recobertas que estavam por azulejos de gosto duvidoso. O porteiro não era o mesmo. Nada sabia dos antigos moradores. Sem uma pista sobre Francesco, afastou-se taquicárdica na tentativa de dominar o coração violento, que sofria em todas as suas dimensões.
O sol já esmaecia e, com ele, a sua coragem. Desapontada e aflita, com mil pensamentos desnorteando-a, seguiu em passos rápidos pelo extenso quarteirão da Rua Andrade Pertence. Não viu um buraco na calçada que quase lhe causava um acidente, salva pelas fortes mãos de um estranho de olhar penetrante. Refeita, agradeceu àquele homem que a segurava com tanta firmeza e, mais atenta, continuou em frente. Alcançou a Rua do Catete, dobrou à direita e prosseguiu ao longo, sem destino. O barulho do trânsito intenso lhe tolhia o pensamento. Avistou o Museu da República. Já estivera lá, muito antes, em companhia de Thomas. Conhecia a sua história, mas não gostava daquelas aves no topo da fachada, pareciam de mau agouro. Atravessou a rua com certa dificuldade ruma à praia do Flamengo. O parque estava deserto. Nos postes, as luzes já anunciavam a noite. Os carros passavam em alta velocidade. Os táxis, todos ocupados. Uma sensação de angústia pesava no seu coração, deixando-a inerte. Sentia-se perdida. Após algum tempo, reanimou-se com a parada de um táxi, que a conduziu ao hotel.
A noite se alonga escorregadia, nas suas armadilhas. O estado de vigília me traz um cansaço que, somado à decepção da tarde, não me deixa descobrir os atalhos da longa estrada estilhaçada que me levaria a Francesco. Entrego-me à dor da desesperança, como se não mais houvesse o dia. Há algo de tenebroso na minha alma que teima em esmagar meu pobre corpo de mulher solitária. Quebradas as forças, que faço desse amor que penetra minhas entranhas e chega ao coração alucinando a noite da minha vida?! Onde estariam aprisionados os fragmentos dessa história que persigo como louca, no afã de reinventá-la?
Fora tudo tão de repente! Ali estava ela, naquele minúsculo apartamento, perplexa, ainda não refeita, sem saber como tudo acontecera. Olhou em volta e pôde vê-lo estirado na cama, pálpebras cerradas, braços jogados ao longo do corpo. Por um instante pensou estar sonhando. Tentou levantar-se, mas, as pernas não se moviam. Gastou uma eternidade tentando abotoar a blusa. Um gesto, uma recusa, poderia ter evitado. Quieta, observava-o. Só conseguia pensar nas mãos dele, roçando-lhe o rosto, dedos fortes, ásperos, deslizando em direção aos seus cabelos, retirando-lhe os grampos e desfazendo o coque. Seu corpo estava próximo e tenso. Sentia-lhe o suor quente, molhando-a, aquecendo-a. Nada se diziam, ele crescia, englobando-a, e como numa vertigem, ela ia sumindo numa capa musculosa e dura, como ferro saído das brasas, queimando-a ao extremo.
Quantas vezes estivéramos juntos! Quantas vezes!…
Com o passar do tempo, ele perdera a doçura dos primeiros encontros. Seus beijos se tornaram agressivos. Parecia faminto e insaciável. Mostrava-se dominador. Ciumento, cobrava-me a presença. Já não éramos donos de nós mesmos. Uma paixão tão louca fazia-nos perder o bom senso. Há muito, havíamos deixado a cautela necessária a um amor proibido. Íamos ao encontro um do outro nos momentos mais inconvenientes.
Ó grande amor! Que estrada deveríamos percorrer para chegar ao nosso pouso?! Estou tão só neste quarto estranho! Entre nos meus sonhos, indique-me o caminho! Faça-me saber que ainda sou amada! Quero mergulhar em muito mais além de um sono profundo. Quero atingir o espaço iluminado pelas luas: Crescente, Cheia, Minguante e Nova, onde moram as estrelas: d’Alva, de Órion, do Cruzeiro do Sul e, na claridade do instante, não seria difícil encontrar-me.
Acordo disposta a procurar Isabella. Temo que ela se recuse a ajudar-me. Seria compreensível. Afinal, vários anos se passaram sem que eu lhe enviasse um só cartão de cumprimentos. Éramos grandes amigas. Recordo-me de como a conheci. Assistia à missa na igreja Nossa Senhora de Copacabana, e a cerimônia se prolongava. De repente, senti-me desfalecer. Agarrei-me à pessoa que estava de pé no banco da frente. Ela se virou assustada, mas, ao perceber o meu estado, gentilmente me segurou pelos ombros, conduzindo-me para fora do templo. Tentou reanimar-me, abanando-me com um leque, já um pouco gasto, talvez, pelo uso. Figuras de dançarinas espanholas pintadas naquele leque me fizeram lembrar um tempo em que Thomas era o meu universo. Estávamos em lua-de-mel, circulando pela Espanha, tomados de alegria. Tudo era festa. O passado sombrio desaparecia, enquanto Thomas me conduzia para a vida. O desmoronar dessa estrutura ocorreria ao longo dos anos, culminando com a nossa vinda para o Brasil. Penso ter feito comentários a respeito, visto como ela me olhou, sorriu e nada disse. Isabella era uma pessoa simpática. Descobriríamos mais tarde termos uma amiga em comum, a professora de português. Cristina, a quem devo a minha fluência no idioma local.
Agora, sentada em frente a Isabella, ainda paralisada pelo que acabava de ouvir, o mundo mais uma vez se descortinava, mostrando-me o seu lado ameaçador. Meus temores se tornavam concretos. Ela, de tudo sabia. Compreendi que a minha grande amiga não seria minha aliada, não naquelas circunstâncias. Parecia querer livrar-se de mim. Ao tocar no nome de Francesco, sua reação veio de imediato. As palavras jorravam-lhe como se não aceitasse réplica. Falou de um tempo em que Francesco teria abandonado sua carreira militar, pelo constrangimento de se ver exposto a comentários sobre o seu relacionamento amoroso com uma mulher casada que nem sequer soubera respeitar o marido e os próprios filhos. Ele, que sacrificara a carreira, teria retornado ao convívio dos pais e, no momento, encontrava-se na mais completa felicidade, uma vez que estava de casamento marcado com uma jovem veterinária que assistia à fazenda deles.
Isabella falava, e a minha dor crescia, embargando-me a voz. Retirei-me, asfixiada pelas suas palavras, no desespero de um afogamento diluviano, na correnteza que me arrastava para o abismo.
Sem rumo, andei ao longo da Avenida Atlântica. Esgotada, pensei em sentar-me a uma das mesas espalhadas nas calçadas dos bares lotados de jovens, que se esforçavam em manter o bronzeado, resquício de um verão recém-ido. Ao vê-los cheios de vida, pensei o quanto triste fora a minha adolescência, sem aquele calor, confinada aos corredores de um internato. Fiquei a observá-los por mais alguns instantes, expulsei os pensamentos e atravessei a pista em direção à praia. Ali, parada, sentia os pés se afundarem na areia, prendendo-me, imobilizando-me. Fitei uma onda que se erguia ao longe, engolfava em sua própria entranha, atingia o clímax, e, em seguida, arrastar-se velozmente e vir desaguar aos meus pés, deixando sulcos na areia ao retornar ao mar, como o fizera Francesco no meu coração.
Como que ouvindo o meu lamento, o sol surgia e lançava raios que se refletiam sobre as águas, em faíscas ondulantes, a me fazerem recordar o mento em que Francesco ergueu a minha mão, para que o brilho do meu anel rivalizasse às estrelas. Senti-me reconfortada. De repente, lembrei-me de que ainda poderia contar com o coronel Honório para encontrá-lo. As forças ressurgiram.
Com a ajuda diplomática, cheguei até ao coronel. Era um homem alto, de olhar severo, não muito simpático, voz exaltada, cheio de perguntas que me constrangiam e me assustavam. Havia sinais de mudanças nos meios políticos, e o coronel parecia agarrar-se ao que pudesse restar de outros tempos. Contrafeita, tive que expor os motivos que me levavam a procurar Francesco. Não obtive as respostas necessárias. Sem as coordenadas que me guiassem naquela busca, mais uma vez, caía prostrada no desencanto da vida.
Durante dias fiquei a imaginar como chegar até Francesco. Algumas vezes ele havia me falado da cidade onde nascera. Ficava no interior de um Estado do nordeste. Lá chovia pouco, e o sol castigava. Não tinha mar, apenas um rio que era a alma da cidade. A situação agropecuária não era das melhores, a seca prejudicava a agricultura. As fazendas de gado eram poucas e de pastagem. Seu pai preferira lidar com bovinos e outros, que já não me lembro. Enfim, era o pouco que eu conseguia trazer à memória.
Pensei escrever-lhe uma carta. Mas, como ter a certeza de que chegaria às suas mãos? E nem estava bem certa sobre o endereço. Certamente, sua família já teria conhecimento dos fatos, comunicados por Isabella. E, quem sabe, ele também já estaria a par. Não. Se Francesco soubesse teria me procurado, imediatamente. Porém, quem me daria essa certeza, o amor?! Sim, o amor. No entanto, que sabíamos nós do amor? Eu o deixara no primeiro obstáculo. Ele, hoje, noivo. Creio que só sei de uma paixão que não se extinguira. Francesco vivia em mim, com seus beijos, seus suores e tudo que os sentidos permitiam. Os anos não poderiam apagar aquela chama. Resíduos incandescentes subsistiam nas cinzas daquele amor, mantendo assim o fogo!
A noite está triste, eu estou triste. Recostada à cabeceira da cama, as almofadas apóiam meu corpo cansado que se reflete no espelho fixado na porta do grande armário branco a minha frente. Olho-me, perscruto o meu corpo, em busca de Francesco, mas o desalento é tanto, que a sua imagem torna-se fugidia, escapa-me à mente delirante, só me restando o meu próprio vazio.
Acordo ainda na incerteza se o vira em sonho, ou realmente a lua cheia da noite anterior teria alimentado minhas ilusões.

