KAREN – CORPO E ALMA
SEGUNDA PARTE
I
Pela segunda vez, encontro-me recostada à poltrona de um avião, num voo incerto. A aeronave não oferece o conforto dos voos internacionais. Contudo, sinto-me mais próxima do meu amado Franco. O espantoso em tudo isso é que ainda tenho esperança.
A viagem não é de tão longa duração. Chama-me a atenção o ir e vir de moças pelo estreito corredor. Há uma certa inquietação nos passageiros, que me deixa curiosa e preocupada. Fico atenta aos murmúrios. Pelo que posso perceber, há alguma personalidade artística ou algo parecido, entre os passageiros. Indago à aeromoça, ela sorri e informa-me que o prefeito mais bonito daquelas bandas está a bordo. Aborrece-me tamanha leviandade feminina. Isso me leva às vendedoras da loja, em torno de Francesco. Entretanto, pergunto-me, por que me incomoda tanto a atitude delas, se carrego as minhas pesadas culpas?! Não estaria eu, também, indo à procura de um homem comprometido, impulsionada pelo desejo de resgatá-lo, mesmo sabendo-o nos braços de outra mulher que, talvez, entenda mais da alma humana que eu? E, se fosse eu apenas uma eterna passageira do mundo? Ou, quem sabe, apenas uma abelha solitária!
Fecho os olhos e tento pensar em Francesco. Novo burburinho interdiz meus pensamentos. Ali, à esquerda, na fila seguinte a minha, o prefeito se levanta e, em tom irônico, avisa que, daquela vez, a culpa não era sua. Risos seguem. Sem nada entender, viro-me para a janela e vejo, em voo paralelo, aves de vestes negras, que me causam arrepios. Parecem disputar espaço com a aeronave. Há um silêncio repentino. Em todos os rostos se nota sinais de preocupação. Passado o susto, os cintos já apertados, não demora muito, percebo estarmos entre blocos de nuvens leitosas, que me fazem lembrar os flocos de algodão-doce tão bem saboreados por meus filhos, quando moravam no Brasil.
A imagem das aves negras permanece na minha mente, como se um mau presságio viesse prenunciar as dificuldades que me aguardam, e esta sensação me angustia. Percebo que o prefeito me olha curioso. Há algo nos olhos dele que me lembra Francesco. Ponho os óculos esportes e volto à janela. Pequenas casas vão surgindo nos intervalos das nuvens. À medida que descemos, tornam-se mais largas. Os telhados ocres já podem ser vistos muito próximos. O verde da cidade e o azul de algumas piscinas dão cor àquele espaço. Tento adivinhar onde estaria Francesco. Não vejo as fazendas. Gostaria de vê-lo montado em algum alazão, correndo pelos campos verdes. A divagação desfaz-se tão logo percebo não estarmos ainda na sua cidade.
Ao descermos do avião, o prefeito se aproxima e me pergunta se estou a caminho do Delta do Parnaíba. Sem entender, fico em dúvida, se devo identificar-me, ou me passar por turista. Aproveito a aproximação dos repórteres que o cercam, consigo escapar dele e misturo-me ao aglomerado que se forma no local de desembarque. Já no balcão de atendimento, peço informações a respeito de transporte para a cidade de Picos. Com os dados em mão, encaminho-me para a fileira de táxis em frente ao aeroporto e escolho um deles, que me levará à rodoviária. Ao fazê-lo, para minha surpresa, o prefeito se aproxima e, gentilmente, oferece-me condução para onde me dirijo, por ser também o seu destino. Antes que eu manifeste qualquer reação, explica-me que é o prefeito daquela cidade, e seria bem mais confortável viajar em condução própria. Por um instante, fico atordoada a imaginar como descobriu meu itinerário. Adivinha meu pensamento e diz que ao aproximar-se do balcão de informações, ouviu-me mencionar Picos. Tento agradecer e dispensar a ajuda, porém, ele me segura pelo braço, conduz-me até o seu carro, acomoda-me no banco traseiro, e, tranquilamente, senta-se ao me lado. Ainda perplexa, vejo outro homem de porte volumoso acomodar-se no mesmo assento, imprensando-nos, sem nos dar a chance de qualquer movimento. Dentro do carro, o ar está abafado e, somado ao calor de fora, faz-me transpirar o suficiente para que a umidade despendida do meu corpo cole à pele o forro de seda do meu blazer.
O carro se move rapidamente por ruas ladeadas de pequenas casas. Da janela, ficou a observá-las distanciarem-se. Entramos numa larga avenida, margeada à esquerda por alguns prédios de dois pavimentos, que parecem manter pontos comerciais. Do outro lado, um rio caudaloso e barrento segue seu curso em ondulações rítmicas. O prefeito faz os devidos comentários e acrescenta que, o pôr do sol na cidade é o mais bonito do país, e que lamenta não podermos esperar para apreciar o espetáculo que nada perde para a Aurora Boreal. A inusitada comparação me faz desdobrar em risos, o que nos descontrai a todos. Dobramos à esquerda, seguimos por uma rua comercial até uma praça e paramos na lateral de uma interessante casa em estilo neoclássico, que o prefeito diz chamar-se Palácio de Karnak, sede do Governo. Em seguida, pede-me para esperar um pouco e dirige-se a casa, acompanhado do homem corpulento que carrega uma volumosa pasta. Aproveito para observar uma igreja mais adiante, em arquitetura italiana, que me dá a impressão tê-la visto em portais, no apartamento de Isabella. A lembrança de Isabella me faz refletir no nosso difícil encontro, no Rio de Janeiro. Teria ela avisado à família de Francesco sobre a minha vinda?!
Envolvida em próprios pensamentos, só percebo o retorno do prefeito quando este já está entrando no carro. O veículo prossegue sua marcha.
À medida que percorremos a estrada, mais me conscientizo da gravidade da situação. Em meio àqueles desconhecidos, tento manter a serenidade. A procura de Francesco fora uma difícil decisão, planejada por longo tempo, portanto, não poderia, agora, vacilar.
Como resposta aos meus pensamentos, o prefeito indaga da minha visita àquela cidade tão distante.
— Você ainda não me disse o seu nome, e os motivos que a trazem a este final de mundo! — fala-me, franzindo a testa, com ar interrogativo.
O motorista nos observa pelo espelho retrovisor. E o passageiro, ao seu lado, vira-se a cada minuto para me olhar, num gesto repetitivo, que me incomoda. Sinto-me embaraçada, sem ter como fugir da situação. O outro passageiro sentado junto ao prefeito, imagino seja o seu segurança, pelo avantajado dos músculos, também parece esperar uma resposta. Contraio os lábios, fico por um instante sem saber o que dizer. Decido responder com uma pergunta:
— Francesco Rondi faz parte do seu círculo de amizades? — Ele me olha como se tivesse sido pego de surpresa, engole seco, franze as sobrancelhas, semicerra os olhos e com ar de desafio, balança a cabeça verticalmente e afirma:
— Você é Karen.
— Como sabe? — Agora a surpreendida sou eu. Percebo que ele já desconfiava, ou mesmo tinha certeza da minha pessoa.
— As notícias voam… — e prossegue. — Lamento não lhe poder ajudar.
Aquela recusa antecipada, tão direta, faz gelar-me o sangue. Ainda assim, insisto no diálogo:
— Francesco já sabe da minha vinda?
— Não. A Família Rondi vai impedir este encontro.
Sua voz é fria, o que me deixa estarrecida.
— Suponho que você seja parente dele!…
— Irmão. Somos irmãos.
— Quando ele souber, porque certamente vai saber, o que pensará de um irmão desleal?!
— Provavelmente irá agradecer-me.
— Agradecerá, sim, mas porque você irá levar-me até ele.
— Desculpe-me, Karen. Procure entender, Francesco está comprometido…
— Por favor, já sei de tudo. Dê-me uma chance, senhor prefeito…
— Amadeo.
— Amadeo, você é a única pessoa que me poderia ajudar… — Havia tanta humildade na minha voz, que parecia tê-lo comovido. Sua fisionomia mudou, e com um gesto de ternura, segurou a minha mão e a beijou. O homem ao seu lado nos olhava sem entender o que se passava. Ao mesmo tempo, o motorista insistia em nos observar pelo espelho, sempre a acompanhar o desenrolar da nossa conversa. Sentindo-me mais segura, suspirei quase imperceptível, na tentativa de relaxar-me depois de tanta tensão.
A nossa frente, a estrada afunilava, como se nunca fôssemos alcançar o seu fim. O asfalto, conservado, mostrava um certo brilho de molhado. Desviei a vista para a lateral e fique a observar o mato seco que passava velozmente. O sol, por trás das árvores de galhos desfolhados, brilhava, amarelando-as em um cenário rústico, porém belíssimo. Atravessamos uma pequena ponte, cujo riacho seco, apresentava lamaçal em craquelê. Mais adiante, percebia-se a mata já se tornando verde. Passamos por uma pequena lagoa de água barrenta. Na outra margem, um morro de pedra, coberto por uma vegetação rasteira, contrastava com o visual anterior.
O prefeito também estava atendo à natureza:
— Infelizmente, o nosso sertão não prima por um cenário verdejante. Aqui, acolá, pode até surgir uma concentração de arbustos, mas, predominam árvores de folhagens ralas. Como você pode ver, temos o carnaubal com estipe elevado. Das suas folhas, extrai-se a cera, que é explorada industrialmente.
Sua voz terna interrompeu a minha concentração. Ao virar-me para ouvi-lo melhor, pude sentir seu hálito quente próximo ao meu rosto. Afastei-me bruscamente, e o gesto me levou de encontro à janela do carro. Constrangido, desculpou-se como se entendesse, assim, a minha reação. De repente, o clima se desfaz ao me chamar a atenção para um agrupamento de compridas rochas em formato agudo, como lanças em direção aos céus, em meio à vegetação, ao pé de um rochedo. Continuou sua explanação, informando-me que os picos que eu acabava de ver deram origem ao nome da cidade para onde íamos.
Chegamos após quase quatro horas de viagem. Sentia-me cansada.
A cidade, de princípio, não me despertou nenhum sentimento. Talvez eu me estivesse precavendo contra as possíveis desilusões. Seguimos por uma avenida muito comprida e ao seu final, já me sentia excitada, ansiosa e curiosa daquele novo ambiente. O motorista desviou o trajeto para outra avenida que, segundo o prefeito, chamava-se Nossa Senhora de Fátima, e freou o carro em frente a um hotel. O prédio possuía uma arquitetura moderna, porém simples. O prefeito fez questão de frisar que, embora não fosse um hotel Five star, era bastante confortável, e que a sua propriedade teria passado de geração a geração.
Após a retirada da minha bagagem do porta-malas do carro, voltei a perguntar-lhe se poderia ajudar-me. Pediu-me um tempo para entrar em contato com Francesco e que logo me procuraria com uma resposta mais precisa. Algo daquele homem me inspirava confiança. Agradeci e dirigi-me à portaria do hotel.
Permaneci o restante da tarde no apartamento, sem que notícia alguma tivesse de Francesco. Anoitecia, e a preocupação ia aumentando. Não quis descer para jantar no restaurante, preferi aguardar o telefonema do prefeito, no quarto. O tempo passava, e eu, já bastante angustiada, temendo que Francesco não me quisesse ver, chorei todas as lágrimas guardadas durante anos. De repente, o telefone tocou. Aflita, apressei-me em atendê-lo:
— Alô. Quem fala?
É Amadeo. Estou ligando para avisar que o Francesco está na fazenda e só poderá vê-la amanhã.
— Conseguiu falar com ele? — Minha voz soava fraca, embargada pelos soluços.
— Não fique preocupada. Somente há poucos minutos consegui contatá-lo pelo radioamador. Só lamento informá-la que ele não poderá vir esta noite.
— Por que não?! quando… então?
— Provavelmente, amanhã. Pelo que pude entender, eles estão lidando, lá na fazenda, com uma vaca prestes a parir, mas que passa por problemas sérios de prenhez.
— A veterinária está com ele?
— Está, sim, E se conheço bem o meu irmão, a esta altura, já deve ter falado de você para ela. Mas fique calma. Francesco é uma pessoa equilibrada e saberá agir corretamente com as duas. Durma tranquila. Boa noite.
Atordoada, joguei-me na cama, num misto de esperança e de medo. Estava nas mãos de Deus.

