KAREN – CORPO E ALMA – Segunda Parte II (Karen – Corpo e Alma – em capítulos)

Karen - Corpo e Alma

KAREN – CORPO E ALMA

SEGUNTA PARTE

II

A noite se tornava difícil para todos. A minha família tinha razões para estar duplamente preocupada. Além dos problemas da fazenda, a chegada de Karen criava um clima de muita tensão. Todos sabiam do nosso passado, e o quanto eu amara aquela mulher.

Era alta noite quando, finalmente, retirei-me do pasto-maternidade, juntamente com os meus pais e Lúcia. Aproveitei para tranquilizá-los com relação à Karen, porquanto eu supunha ser um assunto encerrado. Lúcia se relaxou um pouco, pediu que não se fizesse alarde da situação, pois nós nos amávamos muito, e assim, eu poderia ir até a cidade conversar com Karen no momento que quisesse. Agradeci a sua compreensão, embora aquela reação fosse uma novidade para mim, uma vez que Lúcia sempre demonstrara certo ciúme do meu passado. Mas, o que mais me chamou a atenção, foi o fato dos meus pais, mesmo bastante aborrecidos, não parecerem surpresos com a chegada de Karen. A própria Lúcia aparentava estar preparada para a situação.

Eu me sentia como que em estado hipnótico. Desde o instante que soube de Karen, tentei não pensar nela, fixando a minha atenção no manejo do rebanho. Algumas vacas estavam pojando, e eu tinha que verificar se havia vaca solteira no pasto das paridas. Era uma maneira de fugir do turbilhão que começava a se formar dentro de mim.

Todos foram dormir. Não sei se conseguiram. Beijei Lúcia rapidamente, aleguei cansaço e pedi-lhe que não pensasse mais no assunto, porque, no dia seguinte, tudo se esclareceria. Após tomar um banho, decidi não ir para a cama. Subi os degraus que me levavam ao sótão. Lá, havia uma escrivaninha com alguns papéis em desordem. Eu próprio improvisara um escritório no local. Como havia uma velha cama, que a minha mãe costumava manter arrumada com lençóis limpos, resolvi dormir ali mesmo. Não conseguia conciliar o sono. A imagem de Karen estava gravada na minha mente, e eu não tinha como desvencilhar-me dela. Fui até a pequena janela. O ar noturno estava um pouco frio, fazendo-me encolher os ombros. Não sei se era o frio da noite, ou o meu estado emocional. Sentei-me no parapeito e, na tranquilidade da noite, quedei-me a olhar as estrelas. Não dava para visualizar a lua, mas pude ver a constelação de Sagitário. Há muito não a via, e agora, podia admirar a estrela Épsilon que brilhava intensamente, em contraste com o fundo cinza esbranquiçado, quase apagado, da Via Láctea. Aquele traçado de Bule de Chá que as dez estrelas de Sagitário formavam, trazia-me à lembrança meus primeiros momentos com Karen, nos chás da tia Isabella. Fechei os olhos e revi Karen. O que a teria trazido até aqui?! A transmissão do radioamador estava com muito chiado e não pude entender bem o que Amadeo me falara. Lembro-me de ele ter afirmado que ela estava desacompanhada e ansiosa para me ver, e que chegara a ter pena dela. Teria Karen deixado o marido por mim, depois de tantos anos? Um pouco mais de seis anos, se não me falhava a memória. E os filhos?! Parecia amá-los acima de tudo! Por que se fora, sem ao menos dizer-me adeus?! Nunca conseguira entender o seu silêncio, e por que me deixara. Nós nos amávamos tanto! Nunca lhe perdoaria. Quase cometi um desatino quando ela se fora. Dei baixa do exército e vim refugiar-me na fazenda dos meus pais, que me deram o apoio necessário.

A fazenda fora a minha salvação. Amava aquele campo extenso. Reformara todas as instalações, tornara-me um bom administrador, até um dia conhecer Lúcia. Ao pensar nela, sentia o remorso apertar-me o peito, era uma mulher encantadora. Possuía uma personalidade forte, independente, muito bonita, com longos cabelos negros, levemente cacheados. O rosto comprido e marcante combinava com o seu jeito e ser. O sorriso aberto exibia alvos dentes, com seus incisivos destacando-se dos demais! Cuidava dos animais como se fosse um homem, mas como era feminina no amor! Nunca vira nela a fragilidade de Karen. Mas havia Karen. Acomodara-a em um cantinho do meu coração, e agora, ela ressurgia para enlouquecer-me. Amei-a desde o primeiro instante que a vi. Mesmo sabendo ser ela de outro, não conseguira manter-me à distância.

Karen, que saudade! Acho que nem dormirei. Prevejo uma longa noite de recordações. Quero relembrar todos os instantes que passamos juntos. Foram momentos de total felicidade. Jamais amaria outra mulher como amei Karen. Ela sempre esteve em mim, como um fato pleno, inquestionável, não obstante a interdição do destino!, mesmo antes da nossa aproximação mais íntima. E sua aceitação me veio como uma revelação de vida.

Recordo-me que liguei o carro e fui direto a Copacabana. Naquela manhã, sentia-me particularmente tranquilo. Uma brisa vinda do mar fez decidir-me por um passeio ao longo da Avenida Atlântica. Estava de volta ao Rio de Janeiro e o ar marinho me suscitava milagre iminente. Circulei por algum tempo. A vontade de rever Karen me fez dobrar a esquina da Rua Santa Clara, na tentativa de encontrá-la no apartamento da minha tia Isabella. Era domingo, e ambas tinham por hábito irem à missa, juntas. Embora a probabilidade fosse remota, pelo antecipado da hora, pedi ao porteiro do prédio que tocasse o interfone do apartamento. A criada me avisou que o meu tio havia saído para a praia, e que apenas Isabella dormia. Senti-me inquieto, próprio de quando pensava em Karen.

Tinha chegado na noite anterior e demorado a conciliar o sono. Ultimamente, vivia pensando muito na maneira de abordá-la. Relembrava o diálogo na varanda do apartamento de Isabella e de quanto embaraçoso fora o nosso encontro em uma loja de departamento. Agora, um desejo muito forte me levava a procurá-la. Necessitava de um motivo plausível para me aproximar dela.

Ainda sem algo em mente, disparei rumo Ipanema. Foi quando a vi agitando os braços para um táxi que passava velozmente. Podia ver-se o contorno das suas pernas, pela transparência da saia semilonga. Eram bem torneadas, ligeiramente magras. Gostava da sua alvura. Não entendia o fato das pessoas acharem-na feia. Seus serenos e amortecidos olhos azuis lhe davam um ar de candura e timidez. Estávamos enamorados, sabia. Sentia laços cúmplices nos atando.

Frear o carro bruscamente, fê-la voltar-se de súbito, assustada, ao reconhecer-me.

— Tenho estado a sua procura desde cedo. — Disse-lhe. Ela não respondeu, mas me olhou fascinada. Um frenesi percorreu todo o meu corpo. Abri a porta do carro, pedi-lhe que entrasse. Aproveitei para segurar-lhe as mãos geladas. Ela hesitou por um segundo e sussurrou:

— Para onde você está indo?

— Bem,… vim buscá-la para a missa. Costuma frequentá-la com tia Isabella, não é?

— Quase sempre.

— Não tem ido a casa dela?

— Estive envolvida com o estudo das crianças. Um idioma que não seja o nativo, sempre complica um pouco.

— A propósito, estou querendo sua ajuda no meu inglês.

— Certamente. Necessidade urgente?

— Sim, quebrar barreiras.

— Não entendi.

Sentia uma vontade imensa de falar-lhe a verdade. Sabia o risco que corria. Não podia pôr tudo a perder. Mais prudente seria evitar uma declaração aberta. Contudo, precisava dizer-lhe o quanto a amava. E aquele era o momento.

Pensei ter ouvido ela dizer alguma coisa, mas o barulho dos carros que passavam velozes me ensurdeciam, ou teria sido apenas o ruído dos meus pensamentos que se embaralhavam na minha mente?

— Não a ouvi, perdão!

— Não estamos indo ara a Praça Serzedelo Correia?

— Não. Mas não se preocupe. Temos tempo suficiente até a hora da missa.

— Engana-se! Meu relógio não parou.

Parecia um pouco nervosa. Diminuí a marcha, tentei descobrir um lugar onde pudesse estacionar. Por fim, parei numa rua tranquila.

Estávamos, ali, parados. O mundo estava parado. Recostada à poltrona, a meu lado, podia perceber-se que apenas sua blusa se movia, em sintonia com o ritmo da respiração. Os cabelos presos ao alto, com alguns fios soltos na testa e na nuca, acentuavam a face magra, de olhar triste. Aquela imagem fazia lembrar-me as mulheres azuis de Picasso. Sem um gesto, uma palavra, parecíamos petrificados pelo medo.

Logo adiante, surgiram meninos vadios que brincavam e trocavam socos, como em um ringue. O olhar de alguns transeuntes mostrava o inconveniente do lugar.

Dei partida no carro, dirigindo cauteloso, a fim de manter intacta aquela mulher que poderia sumir a qualquer momento. Sentia o vento quente tocar-me a face. Há muito não chovia e o suor, já não sabia se de calor ou de emoção, teimava em escorrer pelas têmporas.

O rosto de Karen já ganhava um pouco de cor. A intensidade do sol lhe obrigava a semicerrar as pálpebras, mas ainda deixando prever, através dos ralos e dourados cílios, faíscas de um tom azul-violáceo, como que inflamos de amor.

Não sabia como quebrar o silêncio. Então, subitamente, palavras sem nexo começaram a jorrar, até perceber que a mulher ao meu lado era como uma estátua de mármore, ou melhor, cristal, tal a transparência de sua pele. Mas aquele corpo não me enganava, havia sem dúvida, uma outra mulher.

Chegamos, enfim. Gostava daquele finalzinho de rua. Ali era meu refúgio. Subimos o elevador, sem perguntas ou explicações.

Algumas mulheres já haviam estado por lá, porém, naquele momento, não era somente a porta do apartamento que se abria, seu coração também. Olhando-a de esguelha, pôde percebê-la, assim, tão incolor. Dir-se-ia ausente. Agora, sentia-se vexado pela desordem da minúscula sala. Talvez tivesse sido mesmo um grande atrevimento trazê-la até ali. Lembrou-se de ter arrumado a cama antes de sair e isto o aliviou um pouco. Sentia-se intimidado. Vencendo a própria insegurança, aproximou-se dela. Tocou-lhe o rosto. Podia sentir os nervos da sua face, tão trêmulos, que mais pareciam cordas vibrando de um violão. Estreitou-a nos braços.

Encontrei uma mulher ardendo em paixão. Apoderou-se de mim uma ânsia desesperada de apertá-la mais e mais até esmagá-la e nada mais sobrar para o marido. Aquela lembrança inoportuna só me fez aumentar a intensidade dos sentidos. Tivemos-nos como se fôssemos os únicos na face da terra. Como as coisas seriam depois, não saberia dizer. Só sabia que não a dividiria com ninguém mais.

Ali, encolhida e quieta, parecia uma flor, um pequeno miosótis. Tão tênue!

Acendi um cigarro e debrucei-me no parapeito da janela. O sol batia forte. Naquele instante especial nem me lembrara de ligar o aparelho de ar. Ao retornar à cama, percebi que ela dormia. Não quis perturbá-la. Momentos antes, ela estivera a observar-me. Deixei que o fizesse e mantive-me de olhos fechados para que ela ficasse à vontade. Estivemos juntos muitas vezes. Tão juntos que, casa separação me doía como se não lhe fosse ver novamente. Até que um dia, ela me deixara definitivamente.

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