KAREN – CORPO E ALMA
SEGUNDA PARTE
III
Oh, meu Deus, a noite demora tanto a passar! Estou ansioso para revê-la. Sinto-me tão cansado! Gostaria de dormir um pouco. Tenho que me levantar muito cedo. São tantas as providências a tomar, cuidar da vaca parida, para que não demore a pegar cria novamente, nem sei a que horas estarei livre para ir ao encontro de Karen, na cidade. E Lúcia, meu Jesus Cristo, e Lúcia! Minha cabeça parece um redemoinho. Como estará Lúcia neste momento, será que dorme, ou estará aflita com a situação? Por que não sinto por ela a paixão que me impele a Karen?!
A sonolência começa a derrubar-me. É tarde, e necessito dormir um pouco. Quem sabe, sonharei com Karen. Teria ela mudado? A sua imagem está tão nítida na minha mente!
Acordo assustado. Acho que dormi demais. Porém o dia só está começando. Levanto rápido e me visto. Olho o tempo. Lá fora um clarão surge ao longe, renascendo da terra. Densas nuvens vão aos poucos se dispersando. Já alerta para a vida, a natureza oferece a visão deslumbrante do sol com seus raios reluzentes. O vento da manhã balança os altivos ciprestes, cujas mudas, meu pai trouxera da Itália em um dos seus passeios, quando eu ainda era bebê.
O silêncio, só é quebrado pelo tropel dos boiadeiros, rumo ao curral, onde o mugido das vacas leiteiras já se faz ouvir. Mais além, contracenando com o verde do campo misturado ao capim seco da vegetação, o gado pasta morosamente. Estranho! Só agora percebo aquela atmosfera encantadora, que reflete o equilíbrio e a harmonia da natureza com o homem. Seria efeito do meu amor por Karen?!
Já de pé, dirijo-me para o curral, quando encontro Lúcia pisando forte, com botas longas, que lhe dão o ar de uma perfeita amazona. Um chapéu de couro dá imponência àquela figura de mulher atuante. O elegante chapéu traz a marca feminina por meio de um lenço de seda que rodeia a copa alta e sob a aba plana, sobressaem madeixas negras que se espalham por seus ombros firmes. O sorriso é espontâneo, mas o olhar parece esconder algo de ardiloso. Quer parecer segura de si. Retira do bolso a relação das vacinas que devo providenciar o quanto antes, em especial, contra aftosa, visto que a época de vacinar todo o rebanho se aproxima. Convida-me para acompanhá-la até a capital para a compra das vacinas e dos vermífugos, como se nada da noite anterior tivesse abalado nossas vidas. Digo-lhe que, tão logo resolva outros assuntos mais urgentes, iremos fazer as compras necessárias, incluindo algumas mercadorias que se estão esgotando no armazém, na cidade.
Seguimos em frente, rumo aos cochos de sal mineral, para verificar se estão bem protegidos. O capataz já está a minha espera. Procuro saber da vaca parida e do novilho. Faço-lhe as recomendações necessárias.
Em seguida, após o desjejum, pego o Land Rover e sigo para a cidade. Antes da partida, percebo um ar de preocupação na fisionomia de Lúcia. O sentimento de culpa me fere a alma. Ainda estou muito perturbado para poder discernir sobre qualquer decisão.
Ao chegar à cidade, a primeira providência é ligar para Amadeo e saber mais detalhes sobre a chegada de Karen. Tenho que controlar minha ansiedade. Ele não pode atender ao telefone por estar em reunião. Apresso o banho e, ao passar a lâmina pela barba de alguns dias, vem-me a lembrança de quando ia ao encontro de Karen, sempre bem escanhoado, para que ela me pudesse cheirar, como o fazia com tanto prazer. Dizia-me que aquela loção possuía poderes mágicos.
O toque do telefone me interrompe o pensamento. Atendo rápido:
— Alô…
— Francesco, sou eu, Amadeo. Desculpe-me não ter ligado antes…
— Ó meu irmão, quero saber de Karen…
— Deixei-a na Avenida Nossa Senhora de Fátima, no hotel…
— No Picos?
— Sim,… ela está bem instalada, não se preocupe.
— Vocês vieram no mesmo avião?
— Isso mesmo, como expliquei através do radioamador.
— Ela viajava só, sem marido e filhos?!
— Exatamente. Cheguei a vê-la no avião, mas só me aproximei dela em Teresina, no aeroporto, e dei-lhe carona até aqui.
— Como sabia que era ela?
— Desconfiei, porque ainda em Brasília, recebi um telefonema de Clara, preocupada com a notícia dada por tia Isabella, da presença de Karen no Brasil. Assim, quando a vi, com aparência de estrangeira, ainda no avião, e em seguida, em terra, dirigindo-se para o balcão de informações, tratei de seguir-lhe os passos. Foi quando a ouvi indagar de como chegar a Picos. Concluí, portanto, quem seria.
— Irei vê-la imediatamente.
— Calma, Franco… Não esqueça de que você é noivo.
— Nem precisa lembrar-me.
— Então, até mais tarde. Ah, só um minuto,… o que você falou para o pessoal, na fazenda?
Tranquilizei a todos, inclusive Lúcia.
Naquele momento, bastante perturbado com a chegada inesperada de Karen, não conseguia conter a ansiedade. Há anos não a via, e o fato de ela se estar deslocando até aqui significava que algo de muito sério teria acontecido. Eu não queria criar expectativas, mas não podia deixar de sentir um fio que fosse de esperança. Tínhamos sido tão íntimos, agora já nem sabia como recebê-la!
Quando cheguei ao hotel, informaram-me o número do seu apartamento. Mas teria que me comunicar pelo telefone e assim o fiz. Sua voz parecia trêmula ao pedir-me que subisse, e quando o fiz, as pernas quase não me seguravam. Dei leves batidos na porta. Ela demorou a vir abri-la, e quando o fez, foi com extrema lentidão.
Parada a minha frente, à medida que a porta se abria, a claridade vinda da janela incidia sobre ela, marcava seu contorno, transmudava o branco do vestido para tonalidade azulada e fundia na sua pele translúcida. Tão bela!
A fitar-me, seus olhos opalinos se petrificaram. Mudos, ficamos por alguns instantes. Pelo tempo que durou o encantamento, a minha mão permanecia estendida, aguardando o contato da sua que demorou a fazê-lo. Convidou-me a entrar. Havia no quarto uma cama de casal e ao lado desta, uma poltrona. Quando ia sentar-me naquela, ela, num movimento rápido, apontou-me a poltrona. Parecia embaraçada. Sentou-se na beira da cama, silenciosa. Olhei para ela demoradamente, mas o seu olhar não correspondia. Então, indaguei-lhe:
— Está a passeio no Brasil com a família, ou sozinha, Karen?
— Estou só. Meus filhos ficaram no Canadá com meu pai.
— E seu marido?
— Não mais existe. — Respondeu com um ar pensativo, abaixando a vista, como se fosse difícil falar no assunto.
— Separados?
— Tinha problemas cardíacos seriíssimos. Não resistiu. Faz um ano que ele se foi.
— Desculpe, não imaginei…
— Não se preocupe. Todos morreremos um dia.
O tom fatalista da sua voz me deixou preocupado. Parecia tão estranha! De repente, olhou-me tristonha e disse:
— Soube que você encontrou o seu caminho. Eu me perdi no meu. Nunca consegui conduzir o meu destino.
Aquelas palavras amargas me tocaram, profundamente. Desejei abraçá-la, falar-lhe do meu amor por ela, do prazer de reencontrá-la. Mas só consegui balbuciar:
— Os caminhos da vida são cheios de tropeços, resta-nos o autoconhecimento para sabermos o que melhor nos convém.
Ela me olhou tão angustiada, como se eu tivesse ditado sua sentença de morte. Creio que não entendeu minhas palavras, porque me respondeu:
— Erros são partes da vida. Se tivermos que pagar, que paguemos! Mas você está certo, temos que saber escolher o melhor. Você já o fez.
Levantou-se e foi até a janela. Estava tensa, via-se pela maneira como sua testa fazia pressão contra a vidraça. Permaneceu por algum tempo observando a rua, como se quisesse ignorar a minha presença. Súbito, ainda de costas, fez uma citação oriental:
“Uma vez Genji pensava no destino, quando uma aranha atravessou o seu caminho,… ele a segurou na mão. Pensou que a havia aprisionado,… que a mantinha segura, mas quando abriu a mão, ela havia desaparecido,… ou nunca havia estado em sua mão”.
Comoveu-me aquelas palavras, expressadas tão singularmente. Falou muito devagar, como se fosse difícil para ela se expressar em português. Eu não sabia o que dizer. Por fim, fui até ela, apoiei minhas mãos no vidro da janela e circundei o seu corpo, que se manteve paralisado. Beijei-lhe os cabelos. O telefone tocou, quebrando o encanto. Ela atendeu e disse ser para mim. Tratava-se da minha mãe aflita, que acabara de retornar da fazenda, porque meu pai estava com a pressão alta. Desculpei-me, e expliquei-lhe a situação, falei-lhe das duas pontes de safena que eram recentes nele, inspirando cuidados. Prometi que voltaria tão logo o estado dele melhorasse. Ela se manteve calada. Saí apressado e, ao chegar à escada, olhei para trás, lá estava ela parada na porta, olhando-me. Acenei e desci. Ao chegar ao saguão, senti uma vontade louca de revê-la. Nesse ínterim, tive mil dúvidas. Pensei no meu pai, em Lúcia, e em todas as consequências que a presença a presença de Karen acarretava. Contudo, a velha paixão estava tão viva que eu só queria apertá-la nos meus braços. Não resisti, mais uma vez subi as escadas apressadamente. Quase sem fôlego, bati na porta. Novamente ela demorou um pouco a abri-la. Ao revê-la, sem saber o que falar, disse-lhe que havia esquecido de lhe dar o número do meu telefone. Ela me olhou surpresa, quando percebi que seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado. Indaguei-lhe, se ela estava bem. Disse-me que sim, e convidou-me para sentar. Anotei o número em um pedaço de papel e lhe entreguei. Em seguida ela se dirigiu para abrir a porta. Segurei-lhe a mão, mas ela não me olhou. Ficamos alguns segundos sem nos movermos. De repente, abracei-a, de princípio, suavemente, para logo depois, com um ímpeto de paixão, cobri-la de beijos. Ela se entregava e correspondia aos meus desejos com toda intensidade. Mais tarde, dei-me conta que havia esquecido meu pai. Vesti-me rápido e pedi-lhe que me esperasse, que eu voltaria depois para conversarmos. Já no carro, cheguei à conclusão que ainda a amava.
Quando cheguei a casa, meu pai já havia sido medicado pelo meu irmão, Vittorio. Todos me olhavam com reprovação. Não sabendo o que dizer, sentei-me na cabeceira da cama e perguntei-lhe como estava se sentindo. Ele me olhou intrigado e pediu que os outros saíssem do quarto. Contra a vontade, minha mãe se retirou com os demais, sem antes repreender-me. Meu pai, bastante preocupado, queria saber o que acontecera entre mim e Karen. Contei-lhe a verdade. O choque da notícia engasgou-o, teve uma crise de tosse, não deixou, porém, que eu chamasse Vittorio, e declarou categórico:
— Volte lá e diga-lhe que vá embora imediatamente. Porque se você não o fizer, eu a expulsarei da cidade.
— Não, meu pai, não é assim tão fácil. Passei todos estes anos me perguntando por que ela se fora. Agora não a deixarei por nada deste mundo. Prefiro morrer a perdê-la novamente.
— Meu filho, neste caso, quem deve morrer sou eu. Não aguentarei ver um filho meu se comportando de maneira tão indigna com uma moça como Lúcia. Ela ama você, vai sofrer muito. Não merece isso. É tão correta, tão dinâmica! Veja como ela consegue harmonizar a mulher vaidosa que há em si com a altruísta na dedicação aos animais. Você sempre disse que ela tinha um perfil de mulher grega! Pense filho, pense. Veja que a outra é estrangeira, não se adaptará ao nosso meio. Ela já tem filhos que certamente não irão querer viver aqui…
— Não quero discutir o assunto. Nada mudará minha decisão. Sou uma pessoa adulta. Se resolvi casar-me com Karen é porque nunca deixei de amá-la, embora tenha a consciência que não será fácil, tanto para vocês quanto e, em especial, para ela. Mas, se você se adaptou, por que ela não?
— Quando vim para esta cidade, já morava no Brasil há algum tempo.
— Ela, também, morou no Rio de Janeiro, por uns três anos.
— Não se esqueça como essa mulher se comportou com o marido, mesmo você tendo sua parcela de culpa, não a exime do pecado.
— Já lhe disse e repito, fiz minha escolha de acordo com o meu coração. Mesmo que não seja o mais correto, é o que mais quero.
— Lembre-se que ela é uns dez anos mais velha que você!… Hoje não faz diferença, mas chegará o dia em que essa diferença pesará…
Após certo tempo, meditativo, com os olhos vagos e a voz trêmula, disse-me que não gostaria de viver até presenciar a minha desilusão com aquela mulher.
Saí dali aborrecido, e o meu corpo foi de encontro ao da Lúcia que me aguardava, recostada ao umbral da porta que dava acesso ao quarto. Seu olhar era triste e interrogativo. Pedi-lhe que me desse um tempo sozinho, para que pudesse clarear as idéias. Ela consentiu intrigada com a minha reação.
Fui para o meu quarto, joguei-me na cama, certo que os argumentos do meu pai não eram de todo incorretos, e certo também, que ele mostrou não estar tão doente como quisera parecer. Nas crises cardíacas, sempre se tornava quieto e mudo, e naquele instante, estava muito eloqüente!
Quando conheci Lúcia, ela havia sido contratada como veterinária da fazenda, para que pudesse acompanhar a saúde dos animais. Admirei sua coragem. Era jovem, mas já possuía boa experiência. Formara-se muito cedo e, além da fazenda do pai, trabalhava em outras fazendas no seu Estado e em algumas regiões. Deslocava-se de um lugar para outro com muita desenvoltura, cumprindo todos os compromissos. Naquela época, eu já havia saído da depressão que acometera pela perda de Karen, e namorava uma garota da minha cidade, portanto, não foi amor à primeira vista. Só com o tempo, nos conhecendo melhor, começamos o namoro. Para o noivado, foi um pulo. Por trabalharmos muito, ainda não havíamos planejado a nossa casa, mas chegáramos ao acordo de ela continuar sua vida profissional. Tínhamos muito em comum. Acreditava que ela era a mulher certa para mim. Inesperadamente, aparecia Karen para mostrar que não era exatamente assim. O que poderia eu dizer a Lúcia?! A idéia de fazê-la sofrer me doía muito. Éramos tão amigos! Não poderia deixá-la por mais tempo nesse suspense. Por outro lado, nada havia de concreto com relação a Karen, no sentido de decisões conjugais. Na verdade, nem faláramos em casamento, eram planos que ainda estavam se processando na minha mente. O pouco tempo juntos foi só para o reencontro de amor. Mas tinha a certeza, no meu íntimo, de que estava ligado a Karen, inexoravelmente.

