A MARGARITA E O CEBOLINHA

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A Margarita e o Cebolinha

 

 

                                                                         Rita de Cássia Amorim Andrade

 Era uma vez uma Margarita que se viu, de repente, fora do canteiro de flores silvestres. Caminhava assustada pelo bosque, quando se deparou com uma plantação de cebolas.

O olor desprendido daquelas cebolas a embriagou. Ela ficou sem pernas para prosseguir suas passadas.

Olhou ao redor e percebeu que estava sendo observada. Procurou descobrir de onde vinha aquele olhar. Havia cebolas de vários tons de branco. Sob o sol, elas estavam protegidas por uma casca amarelada e seca. Assim, não dava para a Margarita descobrir o olhar pressentido, até que avistou uma cebolinha ainda tenra.

Era uma cebolinha macho. O cebolinha a olhava embevecido, com dois olhinhos verdes, próximos um do outro.

A Margarita correspondeu o olhar, curiosa. Ai, que olhinhos lindos! — Pensou.

Ao tentar se aproximar percebeu que estava enraizada. Espichou o mais que pôde e conseguiu chegar perto o suficiente para puxar conversa:

— Por que você fica aí, encoberto com essa casquinha seca?

— É para me proteger dos males da vida.

— Bem, eu não lhe faria nenhum mal.

— Não sei! Não conheço você!…

— Ora! Não precisa se assustar. No horóscopo cigano eu represento a “Estrela Cigana”.

— Eu não acredito em horóscopo!

— Posso ser também “Olho de Dia”

— O que significa isso?

— Eu me abro e fecho com o sol. Vamos, dispa-se.

— Hã!

— Só estou sugerindo que se descasque. Essa pele está feia!

— Mas eu sou feito de muitas camadas. Essa pele feia me protege do sol!

A Margarita, ousada, estendeu as mãos de pétalas e foi despindo o cebolinha, camada por camada. Só não esperava que o cheiro ocre lhe fizesse chorar. E a Margarita chorou. Chorava, mas teimava em descascar o cebolinha.

E o cebolinha só dizia:

— Eu não disse! Eu lhe preveni…

— Mas eu sou teimosa e vou descascar você até o final, com lágrimas ou sem lágrimas.

O cebolinha ia ficando cada vez mais roxo.

O tempo passava e a Margarita, quanto mais descascava o cebolinha, mais o cebolinha aumentava as camadas.

O tempo passou. Um dia, a Margarita se viu sequinha, que nem a primeira casca do cebolinha, e percebeu que era hora de virar pó.

Antes de libertar a alma de flor silvestre, a Margarita deu uma última olhada no cebolinha e sorriu…

O cebolinha continuava roxinho de vergonha, mas deixava escorrer uma lágrima.

3 comments to A MARGARITA E O CEBOLINHA

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  • Wilton Porto
    Vejo no miniconto de Rita de Cássia Amorim Andrade, nascida na cidade de Simplício Mendes (PI), o exemplo dos cuidados que temos ao encontrar-nos um desconhecido que nos observa dos pés à cabeça. Cada pessoa pode ter uma reação diferente. A reação de uma mulher pode diferir da do homem. Talvez possamos pensar que estamos sendo admirados No entanto, tem aqueles que acham que a roupa não está legal e por ai vão os pensamentos.
    Muitos, como o Cebolinha, estão enraizados numa educação rígida. Botam uma couraça no corpo para se proteger de tudo e de todos. Desconfiam de qualquer tipo que se aproxima e evitam conversação. Já outros não se intimidam e até conversam como se bons amigos fossem. A cultura e a educação têm muito a ver com isso. São tantos os salafrários que se aproveitam das pessoas abertas ou ingênuas para aplicar golpes! No tocante às crianças, temos que oferecer uma educação muito bem estruturada: são constantes os exemplos de pedofilia!
    Há, também, os casos do enraizamento. Vê-se a pessoa uma vez e já surge um brilho invadindo todo o nosso interior. Pinta uma amizade duradoura ou uma paixão que ultrapassa entendimento comum. Nesse relacionamento, ajudamos e somos ajudados, ferimos e somos feridos. Há os que se eternizam e os que não duram um sonho de uma noite tranquila. Desse sonho pode ficar o cheiro da cebola – marca que aquele encontro, aquele momento a dois tatuou. Mas o que importa é que algo ficou. Dividimo-nos, somamos, tivemos horas de puro prazer, de elevação de algo que naquela história fora registrado no livro da nossa caminhada.
    Rita de Cássia Amorim Andrade está entre os melhores nomes da literatura piauiense. Seus romances são traçados dentro de uma linha moderna e ela tem uma fluência das mais cativantes. Valoriza a mulher, o relacionamento. A sensualidade é marcante na obra dela. Também escreve poesia. E seja qual for o que ela escreve, a escritora usa de uma responsabilidade incomparável, porque sabe das exigências do leitor e porque compreende que em literatura, temos que oferecer o melhor. Para isso, além da pesquisa, tem que haver talento. E Rita o tem de sobra.

  • Greatings, Thank you! I would now go on this blog every day!
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